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O capitalismo, como o sistema econômico que mais resultados positivos trouxe para a economia e as nações globais, agoniza e recebe questionamentos de todos os agentes econômicos. A cada dia, os principais periódicos mundiais trazem depoimentos de gurus econômicos, autoridades monetárias e formadores de opinião mostrando a indignação e irritação quanto à maneira incestuosa com que os grandes bancos globais gerenciaram os seus ativos e, muito pior, os ativos de seus clientes. Durante anos, fomos induzidos e convencidos de que o nosso suado dinheirinho estaria muito bem administrado sob a guarda de brilhantes gestores, especialistas na arte de multiplicar e alavancar riquezas. Os instrumentos eram os mais sofisticados, envolvendo complexas operações de hedge com diferentes combinações, travas e apostas, sempre com a ressalva de que o risco era praticamente nulo e o retorno seria polpudo. Este autêntico cassino financeiro provocou a incrível alavancagem de ativos financeiros, formando a pior bolha de toda a história. Porque ao contrário da bolha da Internet, por exemplo, que era setorial e isolada nos EUA, esta é global, intrínseca e meta-setorial.

Desde o término da adoção do padrão ouro para o lastro de operações financeiras e com a desmedida desregulamentação dos mercados, largados à sua própria sorte, a alavancagem em relação ao PIB mundial saltou de 20% para mais de 400%, segundo dados da consultoria McKinsey, a tal ponto que, ao final de 2007, a soma da riqueza das nações do mundo somava 55 trilhões de dólares e o total de ativos financeiros, fruto da soma dos investimentos em renda fixa, variável, poupança, derivativos, etc, alcançava o estonteante valor de 220 trilhões de dólares. Reside aí a explicação para toda a crise da escassez de crédito no planeta. Deixamos de produzir e passamos a simular operações e pedalar. Produziu-se vento na proporção de 4 dólares inexistentes para cada dólar real, levando os mercados a mega-realizações de carteiras e ativos. E boa parte desse vento nas empresas, refletido nos valores nominais de suas ações e nos IPOs registrados, foi potencializado por uma falsa valorização de ativos intangíveis como confiança, credibilidade, reputação, marca, inovação, tecnologia e governança corporativa.

Os ativos intangíveis estratégicos que geram valor, também são parte da receita que protege os valores das empresas e nações, principalmente em momentos de ameaça. Não podemos confundir gerar valor intangível fundamentado, suportado por marcas fortes, clientes satisfeitos, networking sólido, inovação que gera resultados, tecnologia de ponta aplicada ao negócio, conhecimento diferencial, governança corporativa e sustentabilidade na gestão, com efeitos de mídia irresponsáveis que insuflam a percepção e enganam analistas, market-makers e investidores, gerando a falsa crença de que o valor existe e é resgatável. Como se viu, não é!

As recentes quedas dos mercados dilapidaram o equivalente a dois Brasis de riquezas por dia. Brasis à parte, nunca antes na história, os brasileiros e seus investidores depositaram tamanha confiança em seus bancos. Qualquer letrado hoje confia os seus depósitos na idoneidade de um Banco do Brasil, Bradesco ou Itaú e fica com a pulga atrás da orelha na integridade dos outrora gigantes de Wall Street. Resta saber quem será o 3o mundo de amanhã…

Quando o secretário do Tesouro americano (ex-CEO do Goldman Sachs, único dos big 5 de investimentos americano aparentemente imune à crise) fritou o Lehman Brothers (grande concorrente de sua antiga casa), rompeu-se o último elo de confiança e credibilidade do sistema financeiro americano e mundial. Pouco antes, o menor Bear Sterns havia sido resgatado, passando ao sistema a certeza de que qualquer outra instituição maior deveria ser socorrida para garantir a liquidez e solvência dos mercados – Merril Lynch e Morgan Stanley também buscando seus caminhos de equilíbrio. Imediatamente, a desconfiança se alastrou pelo mundo, produzindo uma onda de boatos e uma aversão total ao risco por parte dos agentes. Seguiu-se a busca pela liquidez, consequência do corte das linhas de crédito promovida pelos bancos sérios, receosos com o desdobramento do aperto de crédito, o aumento da inadimplência e a quebra de empresas. A histórica e centenária credibilidade arduamente construída por bancos, instituições financeiras e seguradoras derreteu-se em dias. Toda a pose dos senhores do universo de Wall Street ruiu. A casa e o império romperam no mais importante de seus ativos: a fé inabalável nos valores e ideais do sonho americano. A própria tese da globalização dos mercados tornou-se risível, quando posta à prova na Europa e a negativa da chanceler alemã em socorrer países menores.

Já o capitalismo necessitará ser reescrito. Afinal, o modelo atual em que os lucros são privados e para poucos, e as perdas estratosféricas são socializadas, sugando o rarefeito dinheiro do contribuinte para salvar empresas falidas, em um aparente saco sem fundos, precisa ser repensado e, por ora, regulamentado. Quando Von Mises e Hayek poderiam prever a estatização de bancos americanos, japoneses e europeus? A desregulamentação alçou o endividamento das instituições financeiras americanas de 21% do PIB em 1980 para 116% do PIB em 2007. Neste mesmo período, o endividamento das famílias americanas duplicou alcançando 100% do PIB. Um balanço dos EUA mostra que a sua população está insolvente.

Já deveríamos ter aprendido que grandes bolhas acontecem quando a sociedade vive o chamado dilema Crise de Excesso Confiança Positiva. Os recursos, geral, são escassos. Infelizmente, em economia, para alguns ganharem, outros perdem. Não é ideal, mas é assim. Não pode perdurar uma situação onde todos ganham muito por muito tempo. É problema de percepção, análise e também matemática. Inflar com “boas notícias e bons resultados” a percepção de valor gerado e distribuído pelos agentes econômicos é a estratégia maquiavélica que faz poucos ganharem para muitos perderem. E quem ganha, ganha sempre no meio do caminho; nunca no final. O final é sempre negro, para os que ficam com o pó e para as velhinhas de Londres.

Como reconstruir o sistema, restaurar a credibilidade e garantir a sobrevivência do futuro do capitalismo? Com certeza, este processo levará anos e será muito doloroso, porém, o único mecanismo conhecido é o uso da transparência total na relação entre os agentes. Cada vez mais, os negócios entre empresas e entre as empresas e seus clientes será guiado e norteado pela demonstração de contas, margens, taxas, estoques, investimentos e a alocação destes recursos e seu retorno. Com um simples Google, devassamos históricos de empresas, suas políticas sociais, ambientais, analisamos o seu balanço, acompanhamos as suas práticas cidadãs e viralizamos esta informação, para o bem ou para o mal. O economista e professor da Universidade de Yale, Robert Shiller acabou de lançar um livro sugestivo – The Subprime Solution.

O ponto central do livro é a criação de seguros para proteção contra riscos financeiros pessoais e uma comissão especial de segurança e proteção de produtos financeiros. Porém, a sua ideia mais inovadora é a criação de conselhos financeiros independentes para dar subsídios aos cidadãos, nos mesmos moldes dos serviços médicos. Mesmo os badalados MBAs desconhecem, em sua maioria, a diferença entre juro nominal e real; imagine-se então o resto dos mortais comuns. A transparência será a mola propulsora da nova economia que se formará a partir dos destroços do naufrágio do Titanic do subprime e seus colaterais. O esforço para o resgate e cooperação entre os países será uma oportunidade para todos nadarem de forma sincronizada, expor as suas carências, exibir os seus pontos fortes, cooperar e ajudar os mais frágeis, até atingir um porto seguro e estável. Se não houver cooperação, a grande maioria afundará ou será devorada por algum predador, só que no futuro este predador não terá do que se alimentar.

Em tempo: No final de 2008, com muito orgulho, efetivamos, em parceria com o Grupo Padrão, a 2a. Edição do PIB – Prêmio Intangíveis Brasil, em que reconhecemos as empresas excelentes em gerar e proteger valor para o acionista. Os vencedores são empresas excelentes, capazes de solidificar posições amplamente fundamentadas e se manter razoavelmente imunes aos tsunamis econômicos, ainda que sofram alguns abalos. Também vale conferir o ranking CMDOM50 com 50 melhores em gestão de intangíveis no Brasil – nacionais e multinacionais, de capital aberto ou fechado.

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