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Relacionamento pessoal e relacionamento profissional têm suas diferenças, mas sua inter-relação é positiva, uma vez que permite a influência dos valores pessoais no exercício profissional, bem como a agregação dos aprendizados corporativos à vida pessoal. Afinal, o ser humano se define a partir das trocas de experiências que professa com o próximo.

Por muito tempo ouvimos falar que as personas profissional e pessoal dos indivíduos deveriam ser separadas conforme a chamada demanda social e que misturar os dois mundos não seria a melhor conduta para o sucesso no mercado de trabalho. Com isso, os profissionais deveriam aprender a seccionar seu comportamento e atitudes em função do que deles é esperado “socialmente”. Mas essa tese á válida no mundo aberto, instantâneo e interconectado de hoje?

Ao olharmos para a história da evolução humana e para a origem do pensamento racional, percebemos que, desde muito tempo, há uma nítida busca/imposição por uma separação quase que arbitrária entre as condições racional e emocional do ser humano. A bem da verdade, essas dimensões têm sido configuradas como opostas, excludentes, concorrentes. Isto se fez bastante aparente em diversas circunstâncias de movimentos culturais, nas correntes filosóficas, nos modelos de comportamento social, nas tendências de gestão, na instituição família e até mesmo na relação ciência-religião. Uma coisa era água e outra coisa era fogo.

Com o passar dos tempos e a recorrente luta pela reavaliação e renovação nos conceitos e idéias a que a humanidade tem se submetido, passamos a contestar as chamadas verdades dogmáticas, fixadas no passado como tradição intocável. Isso tem sido verdade em diversas searas de nossa existência, dentre as quais direito, religião, ciência, sociologia, psicologia, comportamento, antropologia e filosofia. Um novo modelo de pensamento tem se aprimorado a partir das observações mais embasadas da condição humana e de seus relacionamentos. O pensamento holístico introduziu em nossas vidas a convivência com paradoxos, com a dualidade que, apesar de infalivelmente presente, não nos era permitida vivenciar.

Como reflexo da introdução de paradoxos como elementos componentes de nossas vidas diárias (e, portanto, de nossos modelos de auto entendimento, auto aceitação, convivência, tomada de decisão, etc), passamos a ter menor linearidade em nossas análises e raciocínios (por conta das complexidades introduzidas), mas também passamos a considerar mais ricamente as opções e realidades a que estamos submetidos (e que criamos…).

Por exemplo, físicos e matemáticos conseguem conviver melhor com a religião, psicólogos conseguem unificar o estudo do indivíduo de maneira integral e, como estas, muitas outras questões passaram a ser discutidas dentro de uma visão que une diversos mundos, antagonismos, peças de um quebra-cabeça que até então pareciam separadas. Com isso, oportunidades e riscos se abrem, novos prismas aparecem, versões brotam, a pluralidade evidencia a diversidade, agora mais aceita.

E como fica o universo corporativo nesse novo cenário? Como reage a essas mudanças? O que aceita e o que rejeita?

Vemos, de forma crescente, as empresas se preocuparem com o bem estar de seus funcionários, incentivando-os à evolução profissional contínua, à educação continuada, ao autoconhecimento e à maximização de seu potencial produtivo (alinhando objetivos pessoais com profissionais, valores corporativos com valores individuais, rotinas profissionais, com modelos de home-office e maior tempo com a família). Como reação, a forma não importa aqui, o que é interessante é o foco que está se dando a todas estas questões dentro do ambiente corporativo que permeia a vida das pessoas também fora do trabalho. De maneira geral, executivos e colaboradores produtivos gastam, em média, 60% de seu tempo dedicados a empresa.

Falar de relacionamento humano é algo complicado porque cada ser tem uma visão e um entendimento da vida muito particular, além de cíclico e mutável. Portanto, esperar que, de forma natural, um funcionário enxergue as coisas como seu superior e este como o acionista é simplesmente ignorar a condição humana; é não entender de gente.

O que é correto é buscar encontrar colaboradores que estejam ao máximo alinhados com os valores da empresa e, portanto, que estejam dispostos a trabalhar por sua construção, por suas estratégias. Aqui, não há certo ou errado, mas sim “combino e não combino”, “me faz sentido e não me faz sentido”. A cultura corporativa, fruto da vivência retro-alimentativa desses valores por todos, sustentada pelos exemplos e mensagens da alta-gestão, deve objetivar acolher todas as diversidades, mas, ao mesmo tempo, não prostituir os valores corporativos e nem os valores pessoais de cada indivíduo. Todas as empresas têm seu código de valores que deve, portanto, servir de guia, de orientação a todos que trabalham para ela.

Não se defende aqui a aceitação da interferência desmedida da vida pessoal no ambiente de trabalho ou vice-versa. Na verdade, não é uma questão de se aceitar, mas de se saber conviver, porque é default. O correto é estimular um equilíbrio entre essas duas vidas, entre os dois ambientes. Dizer que o trabalho não interfere na vida pessoal e vice-versa é robotizar o ser humano, o que é inconcebível. O sucesso vem da maturidade com que se consegue lidar com essas situações e com a eficiência em se “ser profissional” em cada demanda social, seja na empresa, seja com a família, seja socialmente mesmo. Vale ressaltar que o “ser profissional” aqui significa viver ao máximo, com o máximo de isenção, o momento presente e tudo que este implica. É, portanto, um ato de aproximação, de mitigação; nunca uma anulação.

Assim, é óbvio que levamos para casa os problemas do trabalho e trazemos para o trabalho os problemas de casa. Não há nada de errado com isso desde que se consiga manter este equilíbrio, que é dinâmico.

Em suma, abordando a linha teórica que engloba o ser como um indivíduo único e central, será mais um enorme desafio para as corporações (e para os profissionais) criarem modelos para se administrar essa questão. Estimular um ambiente aberto às discussões dentro do próprio trabalho é uma forma de conhecer melhor as pessoas e de se buscar discutir, checar, contestar e validar esses valores, essas questões.

É verdade que para tudo existe um limite na vida. Quando falamos de ambiente corporativo, uma série de condutas e expectativas é criada para que todos convivam em “harmonia”, mas impor que a personalidade diferenciada e alguns dos costumes de cada colaborador sejam deixados do lado de fora da empresa é perder uma excelente oportunidade de criar um ambiente corporativo favorável a questionamentos, à interação genuína e, até mesmo, à geração de diferenciais corporativos importantes, sob o risco de produzir, no médio prazo, desestímulo e cinismo nos comportamentos, avaliações e atitudes dos colaboradores entre si e para com a empresa.

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